quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

SELFIE EXISTENCIAL

Pronto! Relaxei ... cliquei e ... agora vou ver o resultado do meu auto-retrato, meu selfie.
To esperando. To esperando. To esperando.
Hummm ... não aparece nada. Será que fiz alguma coisa errada na hora de bater a foto?
Creio que fiz tudo certo. 
As pessoas curtem selfies - eu também! - mas os instantâneos, somente. É uma saudável diversão, sem comprometimentos. Como está na moda, vamos todos, nessa!
Só que ... eu quero ver e enxergar. 

Novamente. Firmo os olhos. Não tem nada. É difícil, requer atenção e sensibilidade.
Espere! Apareceu algo. Já posso ver marcas. Umas maiores ... outras menores.
Cicatrizes. Grandes e pequenas.
Algumas recentes, outras já bem antigas.
Sou eu mesmo? Sim ... sou eu mesmo ...
As imagens não são iguais: parece que estou preocupado, assim meio triste ... melancólico ...
Vejo uma estrada, vou caminhando por ela. Hummm ... está chuviscando. Faz frio.
Pessoas estão passando por mim. A paz interior ... não está sendo buscada, não é o objetivo para o momento. Poucos importam-se com ela.
Aproximo. Dou um zoom. Quero ver melhor. Preciso ver melhor.
Que imagem. Que imagem. Nebulosa, pouco nítida. Droga, tenho que mudá-la.
Vou bater outra foto. Não, não adianta, a imagem é esta. É a minha imagem que estou vendo.
Percebo que esta ... é a minha imagem de agora, mas percebo também que quero e posso mudá-la. É possível. Sempre. E é o que me proponho fazer.
As marcas e as cicatrizes não sairão mais. Eu sei. Mas posso verificar como surgiram e porquê surgiram. Elas podem me ensinar muitas coisas. Reflexão. Preciso entendê-las e contemplá-las corretamente para conseguir isto. Tarefa básica e fundamental. Nada de lamentações. Posso crescer e evoluir, buscar outras compreensões e agir. Agir!
Sabe, até que é bom ficar olhando as marcas e as cicatrizes. 
Me fazem recordar aqueles momentos ... em que eu me joguei por inteiro ... e não encontrei nada. Ou encontrei muito pouco. Errei pensando que acertava. Achei que sabia tudo e não sabia nada. Não fui castigado ou punido. Consequências, apenas. O quadro foi pintado e agora emoldurado para sempre.
Mas ... posso tirar proveito disso! 
E ... posso bater outra foto, sim! Posso! Quantas eu quiser.
Posso trocar de roupa. Botar uma roupa bem legal e aparecer melhor na nova foto. Posso me agasalhar, sorrir e até mesmo gargalhar. Só depende de mim. O tempo pode continuar chuvoso, não faz mal. Posso proteger-me e evitar outros sofrimentos. 
Aliás ... o que é 'sofrimento'?
Os sofrimentos me trazem sabedoria? Sim, certamente. De que tamanho são os sofrimentos? Agora entendo ... eles são do tamanho que eu os imagino. Se eu os considerar grandes ... me engolirão e de nada adiantarão novas fotos; revelarão a mesma imagem ... Se eu procurar entendê-los e buscar uma convivência adequada com eles, não me ferirão. Não como antes! Saberei lidar com eles. E aí a nova foto mostrará uma outra pessoa. Que já caiu e se levantou. Fracassou mas não desistiu. Fortaleceu-se para novas empreitadas.
Quem será esta 'outra pessoa'? 
Eu. Eu quem? Eu. Mas quem sou eu? Sou um indivíduo como outro qualquer. Errado. Eu sou único, não tenho cópia. Eu percebo e sinto as coisas como só eu mesmo posso perceber e sentir. Quem vive esta vida sou eu, não devo entregar minha missão para ninguém. O que passei e passo, é comigo mesmo. Os outros tiveram culpa em alguma ocasião? Claro que tiveram. E têm. Não, não tiveram nem têm. Escolhas minhas. As boas e as não tão boas. Acredito sempre e me exponho. Posso e devo ser solidário, amigo ... mas aí fico vulnerável e ... lá virão outras marcas, outras cicatrizes ... e a nova foto revelará as mesmas imagens ... 
Medos. Receios. Coragem. Tudo junto e ao mesmo tempo.
Não tem jeito. A vida é assim. A estrada é esta. 
Olhe! Há tempestades a caminho. Só que desta vez estou preparado. Estou?
Ah! Nada como depois da tempestade. Afinal, tempestades não são eternas, duram enquanto eu quiser, na intensidade que eu permitir. Avalio e aprendo. Pratico.
Quero ver e sentir o sol! Quando ele chegar vou cantar e dançar. Vou sorrir e gargalhar. Vou amar.
Hummm ... pode ser que novas marcas e cicatrizes venham junto ... Tenho que arriscar.
Jamais saberei tudo.
Mas se eu souber um pouquinho ... a nova foto já me mostrará melhor.
Sou fotógrafo de mim mesmo. Estarei sempre batendo fotos.
Existe a foto definitiva? Sim, existe.
O que revelará esta foto? Meu selfie derradeiro.
Estarei de braços abertos ... com meu melhor sorriso ... diante do criador de todas as câmeras. 
Direi para Ele;
Veja, creio ter feito o meu melhor. Se não consegui evoluir... me aceite e me conceda Seu Perdão.
Até a próxima. Foto.